quadrinhas

 

Napoleão com sua espada

Conquistou uma nação,

Eu com uma simples olhada

Conquistei seu coração.

menina minha menina

boqihha de marmelada

no dia que eu não te vejo

não como e não faso nada.

Poema - Os bichos do campos
Gosto dos bichos do campos
Que vivem lá no rincão
Do sorrinho sem vergonha
E do zurrilho mijão
Da lebre comento couve
Do tuco tuco furão

Do preá que à tardinha
Costuma cruzar a estrada
Do lagarto rondando o ninho
E do bicho mão-pelada
E o gato jaguatirica
Cassando na ivernada

O ouriço e o gambá
Sempre foram companheiros
E o tal lobo guará
Gosta de comer cordeiro
E o velho tatu peludo
É um bicho macaeiro

Até os bichos do mato
Fazem parte da tradição
Lá na olha do açude
Tem um casal ratão
E a lagartixa matreira
faz o buraco no chão

O veado e o tamanduá
São duas familhas antigas
Um gosta de feijão verde
E o outro come formigas
E a raposa fofoqueira
Gosta de fazer intrigas
Poema - Tempo de seca
Chinoca prepara o mate
Eu venho meio estafado
Passei o dia no campos
Lidando com ovelha e gado
E até o tostado velho
Está com o lombo pisado

Não chove faz muito tempo
O campo está uma secura
Vaca morrendo atolada
Está tudo uma loucura
O milharal está secando
E a água não é mais pura

Vou fazer prece a São Jorge
Santo Antônio e Santo Antão
Pra que chova em abundância
No campo do meu patrão
Pra matar a sede do gado
E do meu cavalo alazão

Mulher velha encilha o mate
Que está meio lavado
na lata tem erva buena
Que comprei do outro lado
Reforça este chimarrão
Que estou muito abichornado

Piazinho não faz arte
Vê se para e não amola
Dá água pra este gaucho
Que tá de língua de fora
Se tu fores na Tia Rita
Pede umas folhas de amora

Ritoca prepara a bóia
Carne frita, arroz e feijão
Enquanto eu tomo mate
Guri vai lavar o garrão
Dá milho pras galinhas
Depois vai varrer o galpão

Gurizinho vê se aprende
Camperiar e fale de tudo
Porque filho de peão
Não pode custear estudo
Faculdade é ó pra rico
Pobre não canha canudo
Poema - Falando de tradição
A tradição é a cordeona
Tocando lá no galpão
É o velho fogo de chão
É lenha no espinilho
É cavalo, é lombilho
É cuia pro chimarrão

Tradição é a saracura
lá no banhado cantando
É o touro pampa berrando
Na beira do alambrado
É o boi manso, é o arado
é uma bagual corcoveando

Tradição é a cacimba
De água doce azulada
É o rodeio é a peonada
É o bolicho de campanha
É o chimarrão é a canha
A charla e a carne assada

Tradição é a gemada
É o cepo de corticeira
é a terneirada na mangueira
É o apojo da barrosa
É a prenda linda e cheirosa
Que nem flor de laranjeira

Tradição é o “doze braças”
Nos dias de marcação
É o jogo de gamão
Em tiros de culo ou sorte
É o sopro do vento forte
Deitando o pasto no chão
Poema - Geada
Se este ventinho parar
Quando chegar o lusco-fusco
Vai ser uma tordilha
Daquelas de renguear cusco

Se levantar com o vento
Gela a gente na picanha
Não da pra sair pro campo
Sem uma guampa de canha

Esta geada baguala
Está me deixando gelado
E o pampeiro assobia
Nas cordas do aramado

Com este palinha rasgado
Que comprei da Dona Joana
Com certeza vou tirar
Uma baita lixiguana


Atirem a lenha nas brasas
Pra aquentar o galpão
E pra aquecer as tripas
Me prepara um chimarrão

Dê-me um café bem forte
E um pedaço de pão
Que a geada está branqueando
Lá na quincha do galpão

Campos cobertos de gelo
Estrelas no céu azul
Este é o inverno gaúcho
Aqui nos pampas do Sul.
Poema - Tordilho de estimação
Meu pingo de estimação
Era um tordilho louco
Assustava-se até da sombra
E do vôo dos dorminhocos
Filho da tordilha velha
E do cuiudo do Tinoco

Na culatra de uma tropa
Tranquiava meio oitavado
Cheirando o pó da estrada
Ouvindo o berro do gado
E a cachorrada assolada
Vinha fazendo costado

Ligeiro na cancha reta
Quando a parada era dura
Cansei de ganhar carreira
Correndo por rapadura
Pra matungo piqueteiro
Não tirava as ferraduras

Foi um cavalo completo
Campeiro e solto das patas
Meu tordilho se empinava
Qauando eu ia ver as mulatas
Nas corridas destes pagos
Forrei os bolsos de plata

Não uso freio de pau
Nem rédeas feita de imbira
Meu cavalo rio acima
Nada mais do que traíra
Do tordilho nadando
Todo mundo se admira

Adeus tordilho louco
Velho e fiel companheiro
Tirava-me na garupa
Do meio dos entreveros
Entre os amigos que tive
Tu foste o melhor parceiro
Poema - Tempo de rodeio
Vai ter rodeio dos bons
Na estância do Velho Brito
Indiada prepara as garras
O Domingo está bonito
Já tem gente gritando
Larga pra mim Dom Pedrito

Se for tempo de rodeio
É festa de fundamento
Tem pingo mascando o freio
E laço atado nos tentos
Aporreado corcoveando
E ginete de talento

Já montei em touro xucro
Burro e bagual aporreado
Demonstrando valentia
Defendendo o meu estado
Se o potro encrespa comigo
Largo de queixo quebrado

No rodeio aonde chego
Não costumo fazer feio
Chapéu quebrado na testa
Não ligo pro tempo feio
Colo mais do que resina
Quando assento nos arreios

Nestas festas de rodeio
Tem tertúlia e pajada
Tem gaiteiro e trovador
E muita barraca armada
Tem roda de chimarrão
Até alta madrugada

Têm artistas e poetas
Demonstrando seu talento
E na cidade de lona
Não tem choro nem lamento
Todo mundo se diverte
Como é lindo o movimento
Poema -Bailão do Badanha
Alço a perna no pingo
É dia de domingueira
E saio mais entonado
Que pica-pau em tronqueiras]Acossado das mutucas
E tapo de polvadeira

Vou chegando despacito
Num bolicho de campanha
E digo pro bolicheiro
Enche-me a guampa de canha
Que eu vou arrastar os "quartos"
Lá no bailão do Badanha

Ato o pingo no palanque
E vou tirando as esporas
Guardo em baixo dos pelegos
Não gosto de olhar de fora
Prendo o grito pro gaiteiro
"Me solta guasca de fora"

E saio mais embalado
Que nem macaco em cipó
Com a filha da Bernardina
Do salão tirando o pó
Agarrado na cintura
Sacudindo os mocotó

No outro dia bem cedo
A moçada ainda se assanha
Os moços vão a cavalo
E as prendas partem de aranha
Hoje só resta saudade
Lá do bailão do Badanha
Poemas do tradicionalista Galvão Lenir Machado Marins
Natural de Lavras do Sul, região central do RS, nasceu em 15vde outubro de 1936. Sua poesia fala dos temas conhecidos na infância, como a lida campeira, os cavalos e cuscos campeiros de todas as horas, da natureza, dos costumes e tradições do Rio Grande, da peonada, dos fandangos, das estâncias, das guerras contadas pelos mais velhos, enfim fala do gaúcho em sua plenitude. Ao falar do passado, mostra algo além da nostalgia, mostra o sentimento de amor de alegria e de tristeza pelas coisas que passaram e hoje são apenas lembranças.

Lenir já foi classificado em concurso literário na cidade de Bagé, tem algumas poesias publicadas em jornais de Dom Pedrito Folha da Cidade e Ponche Verde. Teve sua poesia "Bailão do Badanha" musicada e saiu-se vencedor na 3ª Ronda da Canção Crioula de Dom Pedrito (1999) como a música mais popular do festival. Seus versos ultrapassam as fronteiras do Rio Grande do Sul, percorrendo os pagos de Santa Catarina e Mato Grosso do Sul.
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